Branquitudes

[artigo publicado no jornal O Público, 3 de Julho de 2020,  escrito por Cláudia Silva, Professora Auxiliar Convidada. no Departamento de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico]

Vamos supor que eu era branca. Como veria o mundo? Como veria a brancura da pele? O branco da pele é uma não cor que não se vê? Você que é branco como vê a sua branquitude? O que significa ser branco? Falar de branquitude é atribuir a todos um lugar nas relações de racismo.

Noutro dia, sentada na esplanada dum restaurante numa rua algures perto da Alameda, com um amigo branco com quem costumo almoçar comummente no mesmo lugar, passou uma senhora já de idade, branca, que mendigava dinheiro entre as várias pessoas que ali almoçavam. Quando passou por nós, depois de ter pedido dinheiro e este lhe ser negado, lançou com toda a brutalidade para o ar: “Você só gosta de pretos, pá!” Fiquei muito zangada. O meu amigo tentou consolar-me dizendo “esquece”, afinal, “ela é uma falhada, pede dinheiro na rua.” Eu pensei: “Pede dinheiro na rua, mas sente-se superior a mim pela sua branquitude. Supremacia branca é isto.” Embora essa mulher não esteja consciente dessas relações de poder e dominação, o seu sentido de superioridade racial tem profundas raízes no colonialismo que sustenta uma sociedade configurada pelo racismo estrutural. São os brancos que ocupam os lugares de poder em todas as esferas da sociedade ocidental. E, apesar de estar na rua a mendigar, ela sente-se inserida nesta esfera de poder, por ser branca.

Já durante uns dias de relaxe, recentemente no Algarve, com os nossos corpos em biquinis coloridos e maleáveis, deitadas na areia duma praia quase deserta, tive uma conversa elucidativa com amigas íntimas brancas e portuguesas. Uma delas disse que achava discriminatório a colecta de dados étnicos em Inglaterra, onde residiu. Eu partilhei com ela a minha opinião de que estes dados eram importantes para criação de políticas públicas que combatam desigualdades raciais estruturais e sistémicas. Dei exemplos positivos do Brasil e EUA. Esta conversa sobre etnias levou-a a recordar um amigo. Ela considerava que esse amigo mexicano, que também conheci, de origem e aparência indígena (para mim, evidente), era branco. Discordando, perguntei-lhe porque achava que o rapaz era branco. Um pouco confusa, respondeu dizendo que o via como branco. Mais adiante, na conversa, assumiu que nunca tinha pensado nisto e que para ela o mundo era dividido entre brancos e pretos. Questionou-se a si própria se seria racista por pensar assim. Os asiáticos e indígenas são brancos, segundo ela. Dizendo eu que não era bemassim, respondeu veemente: “Então, temos de definir o que é ou quem é o branco.”

A socióloga branca Ruth Frankenberg (19572007), uma das pioneiras dos estudos críticos da “branquitude crítica” (critical whitenessstudies), estudou durante uma boa parte da sua vida para responder à pergunta da minha amiga e para estimular tantos outros leitores, no seu livro de 1993 White Women, Race Matters: The Social Construction of Whiteness, a perguntarem-se o mesmo. Entrevistou 30 mulheres brancas norte-americanas sobre as suas histórias de vida para teorizar a “branquitude” a partir dessa experiência de vida. Nesse livro (ainda não traduzido em Portugal, Frankenberg diz que a “branquitude” é um lugar estrutural (de vantagem e privilégio) do qual o sujeito branco se vê a si mesmo, aos outros e à sociedade. A “branquitude” refere-se também a um conjunto de práticas culturais que geralmente não são marcadas nem nomeadas, sendo que o indivíduo branco situa-se num lugar confortável a partir do qual pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo. O “privilégio branco” é usado como catarse, mas sem ser, posteriormente, nomeado por aqueles que usufruem do mesmo.

Assim como Frankenberg, convido os leitores, as pessoas brancas anti-racistas e a sociedade geral a pensar o que significa ser branco em Portugal, na Europa e fora dela, e a questionar a neutralidade racial do “branco”. Ao fazerem este exercício, alguns poderão deixar de ver a luta anti-racista como um acto de compaixão pelo “outro” (o não-branco que é exótico e excluído) e ter um papel mais orgânico e activo que seja vinculado às suas próprias vidas.

Para continuarmos a discutir o racismo em Portugal é fundamental que falemos e estudemos a branquitude. A branquitude precisa ser racializada. O racismo não é só uma questão das pessoas negras, mas também das pessoas brancas. É por isso que se cita tanto Angela Davis: “não basta não ser racista, é preciso ser anti racista.” Um branco anti-racista não deve ficar emudecido perante situações racistas, como as que citei acima, nem diante do racismo estrutural. Deve usar o conhecimento e privilégio que tem para desmantelar o sistema.

Vários cientistas sociais apontam para a importância de estudar os brancos com o intuito de desvelar o racismo, pois estes, intencionalmente ou não, têm um papel importante na manutenção e legitimação do sistema opressor do racismo.

Nos EUA, ser branco está ligado à origem étnica e genética de cada pessoa. Uma pessoa considerada branca em Portugal ou no Brasil, por exemplo, poderá não ser considerada branca pelos norte-americanos. Nos EUA, basta muitas vezes uma pessoa ter um negro (ou não-branco) na linha genealógica para ser excluída da branquitude, sendo esta classificação conhecida como a “regra da gota única”. Ruth Frankenberg cita, no seu livro, o caso de Donna Gonzaga, casada com um português chamado Emesto, de pele mais escura é considerado pela sua mãe um homem “negro”. No Brasil, parece ser o contrário dos EUA. Se a pessoa tiver brancos na família é considerada mestiça e não negra. Ser branco, no Brasil, está ligado à aparência, ao status e ao fenótipo (recordemos o caso do jogador de futebol brasileiro Neymar quando em 2011, entrevistado pela jornalista Sónia Racy, do jornal Estadão, disse que não era preto; ele tinha I8 anos e não tinha ainda consciência racial). E, em Portugal, o que é branquitude? Ainda não sabemos bem, porque parece não haver estudos académicos publicados sobre a branquitude crítica. No entanto, os episódios descritos acima dão-nos algumas pistas, que merecem ser analisadas criticamente, com cuidado e em profundidade por cientistas sociais, activitistas anti-racistas, jornalistas, professores, e por cada indivíduo branco que preze por uma sociedade com justiça social.

Supernormal Stimuli

In my new book, Supernormal Stimuli: How Primal Urges Overran Their Evolutionary Purpose, I describe how human instincts, for food, sex, or territorial protection, developed for life on the Savannah 10,000 years ago, not today’s world of densely populated cities and technological innovations. Evolution has been unable to keep pace with the rapid changes of modern life. In the 1930s Dutch Nobel laureate Niko Tinbergen found that birds that lay small, pale blue eggs speckled with grey preferred to sit on giant, bright blue plaster dummies with black polka dots. He coined the term “supernormal stimuli” to describe these imitations that appeal to primitive instincts and, oddly, exert a stronger attraction than real things. We humans can produce our own supernormal stimuli: candy, pornography, huge-eyed stuffed animals. The concept of Supernormal Stimuli has enormous power to illuminate the alarming disconnect between human instinct and our created environment. [Deirdre Barrett (2010)]

The Fixed Period

The Fixed Period has been so far discussed as to make it almost unnecessary for me to explain its tenets, though its advantages may require a few words of argument in a world that is at present dead to its charms. It consists altogether of the abolition of the miseries, weakness, and fainéant imbecility of old age, by the prearranged ceasing to live of those who would otherwise become old. Need I explain how extreme are those sufferings, and how great the costliness of that old age which is unable in any degree to supply its own wants? Such old age should not be allowed to be. This should be prevented, in the interests both of the young and of those who do become old when obliged to linger on after their “period” of work is over. Oh, it is an adamantine law to protect the human race from the imbecility, the weakness, the discontent, and the extravagance of old age! [Anthony Trollope (1882), The Fixed Period]

A Reparação Histórica Eterna

Os Portugueses que não sejam Brancos, não terão os complexos históricos e identitários de muitos, senão a maioria, dos Brancos Portugueses. A Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, defendeu a fixação de um “limite temporal” para a atribuição da nacionalidade portuguesa aos descendentes dos judeus sefarditas porque “não é sustentável uma reparação histórica eterna”. E o “limite poderia ser os dez anos da entrada em vigor da lei” que permitiu a reparação histórica, ou seja, 2025, admitiu Van Dunem, que também usou o argumento contra a “mercantilização” que é feita em vários países com a nacionalidade portuguesa, como Israel, dado que dá acesso a um passaporte europeu que não exige visto para os Estados Unidos. Em nome de uma “reabilitação ou reparação histórica”, o parlamento português aprovou, por unanimidade, em 2015 uma que concedia a nacionalidade portuguesa aos descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica pelo rei D. Manuel I, no século XV. Van Dunem, Portuguesa Negra de origem Angolana, não tem o peso da História, tem o peso da consciência do melhor para Portugal. Talvez, uma esperança.

Sometimes

Humans are primarily driven by their emotions. Jonathan Haidt, in his book The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (Vintage, 2013), uses the metaphor of an elephant and its rider to describe how the human mind works. The elephant represents the emotion part of the human brain. It makes most of the decisions. The rider represents the rational part of the brain. It can sometimes influence the elephant, but it mostly provides justifications for the elephant’s decisions. [Chris Richardson (2018), Microservices Patterns]

Prepare To Be Cancelled

A striking event was the way in which Premier League footballers, reopening the season in empty stadiums, wore shirts emblazoned with the slogan of the new universal Left, ‘Black Lives Matter’. All, along with the referee and match officials, also ‘took the knee’, the sign of obeisance to the new ideology. As far as I know, none of those involved had any qualms about this. But if they had done, would they have dared express them, if they wished to continue in professional football? Would the world have praised their conscientious courage, or would they have been hosed down with claims that they were ‘racists’ and then ‘cancelled’? You know the answer as you ask the question. Who doesn’t think black lives matter? But that is not what these displays mean. They are about particular ways of holding those views, ways which lead relentlessly to intolerance of dissent, to the enforcement – by threats to the livelihoods of dissenters – of a single set of acceptable opinions. And it is not enough to keep quiet. If you are suspected of thinking the wrong thing, they will come and cancel you anyway. I now think this is just a matter of time. Prepare to be cancelled.[Peter Hitchens (2020), The Mail on Sunday]
August Landmesser refuses to perform the Nazi salute during a visit to the Hamburg shipyards by Adolf Hitler in 1936
 

The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity

[review of the book The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity (2019), by Douglas Murray]
“We all live in the campus now”. In the 1960’s, a group of US based intellectuals championed by Laclau, Foucault and McIntosh started a new movement against Western civilisation that today still isn’t clearly defined: cultural-marxism, social justice warriors, intersectionality, post-modernism, woke… The point is that Western society is terribly oppressive, and has a face of a White Cis Male, and only by politicising and weaponising the basic identities of an individual (race, gender, sexuality) it can be overthrown. Douglas Murray made a terrific investigation job and trough a series of events, where he puts names, places, institutions, dates, we can understand how the fight for equality is in fact a fight for “equal, but better”: gay couples are better that straight ones raising a child; black people work harder than privileged whites; only a female leader can prevent incompetent males from starting an economic crisis. He also brilliantly describes the philosophical and pseudoscientific roots of this movement. Disappointingly, Douglas Murray never has the courage to make the connection between the demographic transition in the West from White homogenous countries to multicultural, multiracial ones, and all this “madness”. Maybe the reason why Identity Politics is so appealing is precisely because it can be used as a power grabbing ideology against the (still) White majority in the West.

Tudo Irá Acabar

“Saber que em breve estarei morto foi a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões na vida. Porque quase tudo – todas as expectativas, todo o orgulho, todo o medo do ridículo ou do fracasso – tudo cai por terra perante a morte, restando apenas o que é verdadeiramente importante. Lembrarmo-nos de que vamos morrer é a melhor maneira de evitar a armadilha de pensarmos que temos algo a perder. Já estamos despidos de tudo.”. As palavras são de Steve Jobs no célebre discurso proferido aos alunos de formatura da Universidade de Stanford em 2005, seis anos antes da sua morte. Na verdade, o lendário fundador da tecnológica Apple foi um dos rostos de uma técnica de gestão que conta mais de duas décadas e que está a atrair um número crescente de diretores executivos e gestores de topo em todo o mundo. Daniel Harkavy, coautor do livro Living Forward, chama-lhe a técnica do elogio fúnebre. O processo consiste em conduzir os gestores num exercício de visualização da sua própria morte, levando-os a colocar num papel o que diriam sobre si próprios nas suas cerimónias fúnebres. – https://expresso.pt/dossies/diario/2019-01-14-O-que-tem-em-comum-a-morte-e-a-progressao-na-carreira–Tudo-1

Whiteness

Whereas black studies celebrates black writers and black history, and gay studies brings out gay figures from history and pushes them to the fore, ‘whiteness studies’ is far from a celebratory study. Its aim is that it is committed to disrupting racism by problematizing whiteness. So whereas every other field of race studies is performed in a spirit of celebration the aim of this one must be to ‘problematize’ hundreds and hundreds of millions of people. Of course it might be said that defining an entire group of people, their attitudes, pitfalls and moral associations, based solely on their racial characteristics is itself a fairly good demonstration of racism. For ‘whiteness’ to be problematized’ white people must be shown to be a problem. [The Madness of Crowds: Gender, Race and Identity (2019), Douglas Murray]