Traficantes

Nos últimos dias temos assistidos a uma das mais bem engendradas campanhas de desinformação e intoxicação da opinião pública, vendendo-se a imagem de um jovem herói, Miguel Duarte, responsável directo pelo salvamento de milhares de vida e, como consequência do seu altruísta gesto, vítima de perseguição pelas autoridades italianas.

Várias entidades públicas nacionais manifestaram a sua completa solidariedade para com o indivíduo em questão, prontificando-se a envolver o Estado português no conflito que o opõe à justiça italiana. A justiça italiana decidiu levar o jovem português à barra do tribunal, acusando-o de tráfico de pessoas humanas e de auxílio à imigração ilegal.

E são estes os crimes de que ele é acusado, não havendo qualquer fundamento de que tenha de responder pelo motivo de ter salvo vidas humanas, acto que, naturalmente, não constitui qualquer ilícito criminal.

Que as redes sociais tenham sido inundadas de mensagens de apoio ao jovem activista e de repúdio pelo comportamento das autoridades italianas, também se compreende, tanto mais porque grande parte desses insurgentes desconhecem os contornos de toda a história e, certamente, acreditaram genuinamente no romance que lhes venderam e deixaram-se dominar por sentimentos nobres.

Mas que o mais alto magistrado da Nação, Marcelo Rebelo de Sousa, na plena posse de todos os elementos autênticos sobre o que se está a passar na zona de actuação das lanchas que recolhem os imigrantes ilegais encontrados em alto-mar, venha com um discurso demagógico e insultuoso para com as autoridades de um outro Estado soberano e independente, além de mais nosso parceiro na União Europeia e na OTAN, ultrapassa todos os limites da decência e do bom-senso.

Ao contrário do que Marcelo apregoou, ao Miguel Duarte não lhe está a ser movido um processo criminal por ter salvo vidas, mas sim precisamente pela razão oposta, por todas aquelas que pereceram e transformaram o Mediterrâneo num vergonhoso cemitério.

A verdade dos factos, que tem sido escamoteada do conhecimento público, é que existe uma rede de contrabandistas que actua ao largo da costa líbia, dedicando-se ao tráfico de pessoas que, por diversos motivos, anseiam sair de África e procurar acolhimento na Europa.

No início deste movimento migratório, após a chamada primavera árabe, os contrabandistas utilizavam embarcações de qualidade aceitável, as quais preenchiam os requisitos necessários para transportar em relativa segurança a carga humana que traficavam, razão pela qual, durante esse período, a perda de vidas humanas em alto-mar foi bastante insignificante.

Somente mais tarde é que começaram a surgir, junto à costa tunisiana, as embarcações de activistas que supostamente se prontificavam a salvar vidas em perigo, recolhendo-as e transportando-as até portos europeus.

Estes activistas, não por acaso financiados por George Soros, cujo principal propósito é o de destruir a civilização cristã ocidental, passaram a agir em conluio com os contrabandistas do norte de África, finalizando as operações por estes iniciadas.

Os traficantes, por sua vez, dispondo agora da garantia de que os imigrantes ilegais seriam recolhidos assim que saíssem das águas territoriais líbias, desinvestiram nas embarcações até então utilizadas, bastante dispendiosas, recorrendo a botes insufláveis de baixo custo, com depósito de combustível muito limitado e sobre-lotando a sua capacidade de acondicionamento de pessoas.

E é a partir desta altura que começam os acidentes no mar, com a mortandade de seres humanos a que temos assistido, como consequência da completa ausência de condições de segurança em que os imigrantes ilegais são levados.

E se dúvidas houvesse da cumplicidade destes supostos altruístas activistas com os contrabandistas que ganham a vida a traficar pessoas humanas, basta verificar-se que, ao contrário do disposto nas leis internacionais marítimas, que determinam que os náufragos sejam encaminhados para o porto mais próximo do local onde foram recolhidos, o que temos presenciado é que estes são antes transportados de imediato para portos europeus, nomeadamente em Itália, que distam cinco vezes mais do porto tunisiano onde deveriam ser entregues.

E, abram os olhos os ingénuos, nada neste mundo é feito por acaso: a União Europeia paga chorudos subsídios por cada imigrante descarregado em qualquer dos países que a compõem, ao contrário da Tunísia, que se recusa a desembolsar um tostão que seja para esse efeito.

Não são, portanto, apenas os contrabandistas que lucram chorudas fortunas com o desespero daqueles que querem abandonar as terras onde nasceram. Estes activistas, a coberto de ONG,s encapotadas, igualmente enchem os bolsos com a desgraça alheia.

Daí a acusação de auxílio à imigração ilegal, para a além da de tráfico de pessoas humanas, que pende sobre o jovem português agora catapultado para a categoria de herói nacional.

[Pedro Ochôa (2019), Sol]

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