Sem Propósito

A geração dos meus pais sacrificou-se para que os filhos tivessem o que eles nunca tiveram. Mas é possível que eles tenham tido aquilo que mais nos tem faltado nos últimos vinte anos: um objectivo claro para as suas vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa. Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90. Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia. Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. Além de pagar impostos. Cada português precisa de sentir que conta, precisa de sentir que os seus gestos não contribuem apenas para a sua felicidade individual, ou para a felicidade da sua família, mas que têm um efeito real na sociedade, e podem, à sua medida, servir o país. [João Miguel Tavares (2019), 10 de Junho]

O projeto civilizacional a que chamamos Portugal já não faz sentido. Teria feito sentido se depois da descolonização e posterior integração europeia tivesse existido uma política restritiva de imigração e nacionalidade, fazendo de Portugal um clube restrito. Aliado a um paraíso fiscal para empresas e cidadãos estrangeiros ricos, teria tido uma hipótese de continuar a existir. E seria apenas uma hipótese. Mas já é tarde e nada pode ser feito agora, em 2019. A pressão da integração Iberista vinda de Espanha será impossível de conter. E os portugueses querem sequer a conter?

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