Onde estava no 12 de Junho?

A pergunta é, numa rábula conhecida, ritualmente feita acerca do 25 de Abril. Mas a menos que o inquirido estivesse entre os oficiais do MFA, a resposta até pode lisonjear a sua vaidade cívica, mas é irrelevante para a história. O 25 de Abril foi uma revolução, em que só os revolucionários contaram. O mesmo, porém, não deveria ser verdade para 12 de Junho de 1985, data da assinatura do tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). Há trinta anos, vivíamos em democracia. Devíamos ter contado todos. Mas não contámos, pelo menos directamente. O 12 de Junho não foi um referendo. Apenas uma “assinatura”. Não porque o regime tivesse menorizado o momento. Pelo contrário: em toda a história democrática, poucos eventos mereceram uma encenação tão pomposa, com a nova oligarquia democrática a ocupar o mosteiro dos Jerónimos, como os navegantes de uns novos Descobrimentos. 

O caminho da Europa substituía o caminho da Índia. A oligarquia decidiu, desde cedo, tratar a adesão como uma fatalidade. Portugal não tinha escolha, se queria sobreviver e prosperar. A democracia perfilhou assim uma maneira velha de lidar com as grandes opções nacionais. A ditadura salazarista fizera o mesmo com o “ultramar”. Sem Angola, não havia vida para Portugal. Agora, a CEE substituía Angola. O raciocínio era o mesmo. A “Europa” era a terra prometida de um povo a quem as fronteiras de uma velha independência não bastavam para a salvação. Depois da Índia, do Brasil e da África, era a vez da Europa. A Europa mudou. Portugal também. Em 1985, os portugueses eram ainda uma população jovem numa economia agro-industrial. Trinta anos depois, formam uma população envelhecida numa economia de serviços. A integração europeia enquadrou esta metamorfose.

[Rui Ramos (2015), Observador]

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