A Pressão Iberista

A motivação para o começo do ciclo do império português foi peninsular, como contrapartida a um excessivo peso continental. Cerca de quinhentos anos mais tarde, com o fim do império, a função de garantia da independência nacional que tinha desempenhado o apoio marítimo atlântico recaiu essencialmente sobre a Europa, que garantiu as condições de relacionamento externo e de financiamento do desenvolvimento do país durante cerca de 30 anos, até à actualidade. No entanto, na nossa península, regressaram com uma força surpreendente dois tipos de nacionalismo, com objetivos contraditórios, que se enfrentaram nas ruas, na arena política, e nos tribunais: o centralista e o catalão.

O reaparecimento do nacionalismo centralista espanhol não aparenta limitar-se, no entanto, a querer manter as fronteiras atuais do estado espanhol. Ao que parece, pretende também alcançar um objetivo com séculos de antiguidade e igual número de frustrações: a unificação peninsular. A revista “Diplomacia siglo XXI”, órgão da Academia da Diplomacia espanhola, cujas armas se baseiam “en el escudo del rey de España Felipe II”, no centro das quais se ostenta o escudo de Portugal, e onde escreveram recentemente o primeiro-ministro espanhol e o ministro de relações exteriores, publicou uma edição dedicada ao “Paniberismo e iberofonia”, onde um conhecido iberista, Álvaro Durantez, mereceu honras de primeira página para discorrer sobre “Paniberismo e Iberofonia”. Assim, aparecem algumas interrogações: qual o papel do Ministério dos Assuntos Exteriores espanhol no apoio à documentação iberista produzida pela Academia da Diplomacia Espanhola? Qual a posição da Fundação Luso-Espanhola na “colaboração” que deu à edição do número sobre a península ibérica da revista, no qual aparece na contracapa?

Não haja dúvidas, sem Ceuta, sem o Império, regressamos à geopolítica peninsular onde tudo começou, e onde atualmente pontuam as referidas forças centrípetas. Não haja ilusões: o apoio à fragmentação peninsular crescerá de forma diretamente proporcional à pressão iberista.

[Luís Ribeiro no Observador]

É impossível desvalorizar a seriedade da crise na Espanha. Desde logo, a radicalização dos nacionalistas catalães acentua as divisões internas na Catalunha, não só entre os partidários da independência e os defensores da unidade da Espanha, mas também nas fileiras nacionalistas, onde os partidários da legalidade democrática têm de enfrentar os defensores da insurreição separatista. Por outro lado, a escalada dos separatistas provoca uma polarização que divide os partidos nacionais e paralisa as correntes moderadas. Assim, a crise constitucional e a radicalização dos independentistas perturba a estabilidade peninsular. A democracia portuguesa não é indiferente à escalada das tensões entre as autoridades centrais e as correntes separatistas, onde está em causa a configuração política da Península Ibérica.

Os independentistas propõem a evolução constitucional da Espanha para uma confederação hispânica, que pode estimular as correntes iberistas tanto na Espanha, como em Portugal, e adicionar às dinâmicas de fragmentação as estratégias de integração peninsular. Ambas as tendências prejudicam os interesses portugueses, que só podem ser garantidos no quadro do status quo histórico em que assenta a dualidade peninsular.

[Carlos Gaspar no Público]

O futuro é a Ibéria. A República Federal da Ibéria, onde Portugal e Espanha se irão diluir num único país. De Espanha irão surgir Estados como a Catalunha, País Basco, Extremadura ou Galiza, sendo que Portugal se irá manter como Estado, com os seus devidos ajustes. Por exemplo, os antigos arquipélagos da Madeira e Açores serão Estados por si próprios na nova República, sem qualquer dependências de Lisboa; os distritos a norte, Viana do Castelo, Bragança e e Vila Real, deverão ser integrados no Estado da Galiza; a este, Castelo Branco e Portalegre serão parte do Estado da Extremadura. A inspiração constitucional e administrativa será a actual República Federal da Alemanha.

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