Prefácio

Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. (Fernando Pessoa) Infelizmente não nasci nem com uma inteligência lúdica, nem com uma vontade forte. Criei este bloco de notas como forma de perceber o mundo, o estruturar, o explicar, e assim simplesmente criar uma filosofia que me ajudasse a viver. Mas o que acabei por fazer foi apenas roubar de jornalistas, escritores, filósofos, pedaços desconexos da sua inteligência e criar assim a minha manta de retalhos.

Quando comecei este blog acreditava convictamente numa cidadania universalista, mas acabei por ficar constipado por um vírus que infectou os EUA e já começou a contaminar a Europa. Um vírus que me impõe um rótulo qualquer: africano, gay, branco, cigano, negro, latino, whatever; ou seja, as minhas pertenças comunitárias, étnicas e religiosas sobrepõem-se a tudo o que Eu sou. É mais uma consequência inevitável de uma sociedade multicultural e multirracial do que algo propriamente premeditado; chamam a esta consequência Diversidade, porque simplesmente não sabem o que outra coisa chamar. Na verdade, até estou agradecido; sempre que vejo notícias de “White Americans”, “White police”, “White folks”, “White people”, sinto que é do meu povo que falam, e nem percebo o porquê disso. Sem querer, a minha tribo encontrou-me e eu nem a tive de procurar.

Desde sempre estudei, trabalhei e vivi no município da Amadora e no de Lisboa. Mas nunca encontrei uma casa, nunca encontrei o meu povo e nunca encontrei um sentido de pertença. Admitindo desde já que o conceito de Nativismo é uma aberração, confesso ser um estrangeiro numa Terra que ironicamente toda a Humanidade pensa ser minha. Mas ressalvo que nunca fui mal tratado por esta Linha de Sintra e esta Lisboa “capital imperial”, nem pelas suas diferentes gentes, e por isso lhes estou grato. Também dizem que sou cidadão de uma tal União Europeia. A Europa é um conceito que para além da Geografia já muito pouco diz e que apenas encontra o seu espaço no livros de História. Culturalmente, socialmente e ideologicamente estamos a viver a formação da Afro-Eurasia através das forças vivas da demografia e da inaptidão dos povos que ocupam a actual Europa de defenderem a sua Terra. O espectro da Balcanização já paira sobre o continente, assim como as suas sanguinárias consequências. De qualquer das formas, é uma luta na qual não irei participar e não me diz respeito. Sou Nativo de um Portugal e de uma Europa que já não são estes.


Not all those who wander are lost. (J. R. R. Tolkien) Nas minhas deambulações por Portugal encontrei um território abandonado de Portugalidade, à espera de uma nova bandeira, que certamente já não terá quinas. Por vezes encontrei resquícios do povo a que pertenço, nesses cafés centrais perdidos por aí, mas esse povo já foi diluído pela Globalização, por vezes consentida, por vezes forçada; já não existe Força, nem Vontade, e portanto o mesmo irá simplesmente desaparecer. Reconheço que no fundo apaixonei-me pela fantasia de ter um Portugal, um pedaço de terra meu e dos meus, que podia ser horrivelmente pobre, mas eu também o orgulhosamente seria.

Clarificando. Não sou Ocidental. Não sou Lusófono. Não sou Europeu. Não sou Português. Não sou da Linha de Sintra. Não sou Lisboeta. E ninguém sequer equacionei alguma ver ser dessa aberração a que chamam Cidadão do Mundo. Sou um Benfiquista, Republicano, Tecnocrata, Ateu. Gostaria de ter sido um Germânico antes da Primeira Guerra, um Americano Anglo-Saxónico antes de 1990 ou simplesmente um Português antes de Abril de 1974. Nasci algumas décadas atrasado. Gosto de pensar que descendo dos míticos povos Celtas do norte da Europa e sou filho da civilização de Roma. Na verdade, sou de uma civilização que ainda não existe, que não tem etnia ou religião, uma língua ou canção. Falta-me um Israel; com este blog, tentei fazer um só meu.

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