Adeus Portugal

Após 1974, o Estado de Lisboa ficou reduzido a Portugal continental, Madeira e Açores. Mas mesmo assim, o mesmo Estado vê-se incapaz de governar e controlar (militarmente, judicialmente, economicamente, culturalmente, socialmente) o pequeno território a que está confinado. 
Em 2016 sucederam-se as notícias do Estado de Lisboa a falhar nas suas funções em várias regiões. Os médicos portugueses recusaram as vagas para exercer no sul e interior do país. Das 73 vagas abertas para médicos no Algarve, 31 ficaram por preencher. No interior do país, o cenário é ainda mais crítico. Em 61 vagas abertas por três hospitais do interior, apenas nove foram preenchidas. Mais dinheiro, mais férias e garantias de transferências dos filhos das escolas não foram incentivos suficientes para captar médicos para estas regiões. A norte, a CP reconhece dificuldades em ajustar oferta e procura na linha do DouroA CP lembra que está condicionada pelos “constrangimentos financeiros que o país atravessa.” A reação da CP surge depois dos operadores turísticos do Douro criticarem o “mau serviço” da transportadora ferroviária, queixando-se das “consequências negativas” nas empresas e no turismo na região. “Continua a haver ligações suprimidas em cima da hora, sobrelotação das carruagens, faltas de manutenção e avarias recorrentes do material circulante, falhas nos sistemas de ar condicionado e o recurso reiterado a autocarros que fazem por via terrestre o percurso que milhares de turistas antecipadamente escolheram fazer por ferrovia”, lamentam as operadoras Barcadouro, Rota Ouro do Douro e Tomaz do Douro. De todos os professores do país em mobilidade especial por doença, 10% estão em Bragança. O Delegado Regional de Educação do Norte admite que o elevado número de pedidos de mobilidade por doença de professores do distrito de Bragança “é um problema grave” e que a situação “é estranha”. “Podemos ser mais ou menos cépticos mas não contestamos a legalidade do acto médico. É apenas estranho”, sublinha. “Estas coisas não se resolvem por despacho nem por decreto. Nem tão pouco se pode pensar que a repressão é solução.”

Já em 2017, o Estado de Lisboa descambou por completo. Recordemos que a função número um de um Estado-Nação é manter a segurança dos seus cidadãos. Mas no fogo de Pedrógão Grande morreram 64 pessoas nas suas casas, carros ou simplesmente a fugir dos fogos. O troço de estrada em que morreram 47 pessoas distava apenas um quilómetro do cruzamento do IC8 onde a GNR estava a controlar. O SIRESP, sistema de comunicação para emergências, voltou a falhar completamente. Nada funcionou. Nas forças armadas portuguesas, as suas armas são roubadas em TancosFonte policial adiantou ao jornal que foram roubadas 44 lança-granadas, quatro engenhos explosivos, 120 granadas ofensivas, 20 granadas de gás lacrimogéneo e 1500 munições de calibre 9mm. O comunicado do Exército dava conta do desaparecimento de cerca de uma centena de granadas de mão ofensivas e munições de calibre 9 milímetros. Os autores do roubo terão cortado a rede para entrar na zona militar, num local sem videovigilância. E, pior, os desafios de uma fábrica social multiétnica ultrapassa por completo a ideia de uma Portugalidade homogénea construída pelo Estado Novo e que ainda hoje serve de compasso a muita gente. Os acontecimentos de 2015 relatam que um grupo de cerca de 10 jovens tentou invadir a esquadra da PSP de Alfragide na sequência da detenção de um jovem que atirou uma pedra contra uma carrinha policial. Na sequência da detenção, os restantes jovens, com idades entre os 23 e 25 anos, “tentaram invadir” a esquadra. Foram detidos cinco elementos do grupo e os restantes fugiram. Esta versão é contrariada pelos jovens que se queixam de agressões, tortura e discriminação racial por parte dos agentes da PSP.

Resumindo: as tragédias expõem de forma dramática o abandono a que está votado Portugal. Vimos o fosso entre um país urbano, pendurado nos direitos e desabituado a ter deveres, e um país que vive entregue a si próprio, esquecido. Quem vive fora das grandes cidades já sabe há muito que há o país de Lisboa e do Porto, onde os políticos falam para quem lhes dá votos, com especial relevo para os funcionários públicos, e concentram-se no politicamente correcto. Esperava-se que as autarquias conseguissem preencher essa falha mas ou não têm competências ou alinham pelo discurso e a acção dos políticos da corte de Lisboa. 

Acredito no potencial, valores e capacidades de muitos dos povos que habitam Portugal. Acredito que ainda possam construir algo bonito. Mas o lugar de Portugal como ideia civilizadora é no museu, junto das grandes civilizações cristãs europeias. Depois dos Romanos, dos Mouros e dos Portugueses, está na altura de nova civilização nesta gloriosa faixa atlântica ibérica, seja ela qual for.

 
Padrão Português da Namíbia (1486), Deutsches Historisches Museum

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