Made In Amadora

Dr. Bayard: o nome é francês, os rebuçados são da Amadora. As imobiliárias e os guias turísticos são mestres em vender as maravilhas de certas ruas, mas não é preciso ter uma agência para perceber a originalidade da Gomes Freire: cheira a mentol. Os alunos da escola profissional vizinha, Gustave Eiffel, dizem o mesmo. Naquela zona residencial da Amadora cheira permanentemente a rebuçados, e a razão está escondida no número 10.

O que parece ser apenas mais uma garagem é na verdade a porta de entrada da fábrica da Dr. Bayard, a marca que há várias gerações é a receita de bolso de muitos portugueses para acabar com a tosse. Quem dá as boas vindas, aliás, é a única pessoa que parece sofrer da garganta nas imediações: o homem desenhado nas embalagens de rebuçados da marca, em tons de azul, branco e vermelho, e que está ampliado e emoldurado à entrada, por cima dos cacifos dos trabalhadores. [Observador]

Pérolas do Centralismo Lisboeta

A Fundação Calouste Gulbenkian vai apresentar, em Lisboa o novo mapa da região polarizada pela capital portuguesa. Uma região enorme, que vai de Leiria até ao Santiago do Cacém, atraindo não apenas o Ribatejo mas também Évora e Setúbal, que concentra 40% da população nacional, 24% do território nacional, e que se apresenta com uma ambição global: a de ganhar uma projecção atlântica. O título do estudo não podia esclarecer melhor essa conclusão: Lisboa é “uma metrópole para o Atlântico”.

O estudo esclarece que o arco metropolitano polarizado pela capital tem um forte poder para competir e para atrair investimento. O retrato da nova região feito pelos números, impressiona: 4,1 milhões de habitantes; 42,2% da população com menos de 15 anos do país; 49% da população portuguesa com o ensino superior; 42,5% da população empregada, 44% das exportações. Para lá destas dinâmicas, a região dispõe ainda do principal aeroporto nacional, a Portela, e o porto de Sines, a maior equipamento para o tráfego marítimo do país. Lisboa, isoladamente ou colada à sua área metropolitana, é a cabeça e a coluna vertebral da região, mas, se funcionasse isoladamente, a sua capacidade de competir seria muito menor. O que faz a diferença é que a capital é a base de “região urbana funcional” que se estende pelo Oeste, pelo vale do Tejo, pelo eixo rodoviário até Évora e pelo Alentejo Litoral. Neste conceito, conta menos a geografia do que as relações entre as pessoas ou as empresas.

O estudo fez-se com o empenho da Câmara de Lisboa, que agora parte à procura de meios e de parceiros para responder às suas orientações.  [Público]

Lisboa, município, depois de perdido o Império Colonial, decidiu colonizar as regiões portuguesas suas anexas, criando uma metrópole que não existe e anexando regiões que nada têm a ver com Lisboa. Mas mesmo assim, terão de pagar tributo para as suas estações de metro, os seus museus, os seus institutos públicos, as suas obras junto ao Tejo, as suas regalias. As regiões de Portugal ou mudam de país, vão para Espanha, ou têm de arranjar uma nova capital.