Tribalização

Não sei quando as comunidades chegaram às notícias mas constato que elas não param de se reproduzir. Cada vez há mais comunidades. Temos a comunidade africana. A comunidade chinesa. A comunidade cigana… A estas comunidades de base étnica juntam-se comunidades religiosas, como a comunidade islâmica e a hindu ou comunidades definidas a partir do sexo como é o caso da comunidade homossexual. Cada uma destas comunidades subdivide-se em outras comunidades e assim sucessiva e antagonicamente pois uma das características do mundo comunitário é que pode assumir como traço identitário aquilo que aos extra-comunitários é vedado.

Em boa verdade, à excepção dos brancos heterossexuais não islâmicos, todos os restantes estão mais ou menos arrumados em comunidades. Os brancos heterossexuais não islâmicos são frequentemente racistas e intolerantes. Os que não cabem nessa categoria e consequentemente se arrumam numa das várias comunidades também. Mas enquanto que para os primeiros, os brancos heterossexuais não islâmicos, isso é um crime, nos segundos não passa de um traço cultural.

Ser visto como membro de uma comunidade dá aos seus membros uma espécie de estatuto de excepção mediática e politicamente consagrada. As consequências desta comunitarização da sociedade, em certo sentido quase uma tribalização, podem ser bem bastante perversas: não só o multiculturalismo falhou como se transformou num eixo de financiamento e de poder para os líderes das minorias. Estes, longe de promoverem a integração, têm contribuído para o crescimento do gueto e da exclusão porque é aí e daí que lhes advém a influência.


Helena Matos no Observador

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