Grande Presidente!

O Presidente da República, Cavaco Silva, vetou a lei da cópia privada. Em causa estava a criação de uma taxa (entre 0,05 cêntimos e 20 euros) a ser paga pelos consumidores sobre equipamentos como tablets, smartphones, pens ou discos externos, que seria depois transferida sem critério para associações que representam alguns autores, como a SPA ou a AGECOP, podendo totalizar segundo estimativas cerca de 15 milhões de euros por ano. Cavaco Silva sublinhou o facto que com a lei seriam onerados todos os equipamentos independentemente do destino que lhes fosse dado pelos consumidores:  reprodução legítima ou reprodução ilegal. A lei proposta pelo governo de Passos Coelho tinha sido aprovada no parlamento pelo PSD e CDS-PP.

A Dona Disto Tudo

A empresa ANA-Aeroportos vai pagar cerca de 4 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa a partir de Abril de 2015 devido à taxa turística criada pela Câmara Municipal de Lisboa de António Costa, PS. Imagine que mora em Loures; ou em Sintra; ou no Barreiro; ou em Setúbal; ou em Évora. E quer viajar de avião, deslocando-se para isso através Aeroporto de Lisboa, sendo que a ANA irá repercutir naturalmente os custos de funcionamento no seu bilhete. Você nunca mete os pés em Lisboa, mas irá pagar um imposto a Lisboa; os lisboetas nunca pagarão um imposto no seu município, mas você pagará um imposto para o município de Lisboa; os lisboetas não pagarão pela manutenção do espaço público e serviços da sua terra, mas você pagará os dos lisboetas; os turistas que se deslocam para a sua terra irão pagar a Lisboa uma taxa turística em vez de ao seu município.  
A Câmara Municipal de Lisboa e seus cidadãos não construíram o Aeroporto de Lisboa, nem pagam nada pela sua manutenção, mas no entanto irão ser beneficiados por um imposto sobre o mesmo. É uma forma milenar de obter rendimento sem trabalhar, remontando à estrutura de sociedade medieval, em que os servos, portugueses, trabalham para os vassalos, os lisboetas. Não é novidade no entanto, desde das empresas de transporte com défices de milhares de milhões como a Metro e a Carris, até aos grandes investimentos imobiliários como a Expo 98 e CCB, a relação de subjugação a Lisboa tem sido uma constante nos últimos 40 anos e mesmo séculos.

Aos portugueses resta continuar a trabalhar e pagar a riqueza da capital e seus habitantes. Até ao dia. 


Partido Empresa, Cidadão Consumidor

Num certo momento, os velhos partidos europeus deixaram de tratar os seus eleitores como potenciais militantes, e passaram a tratá-los como uma espécie de consumidores, a quem prestam serviços por meio do Estado Social e da gestão da economia. Previsivelmente, os eleitores começaram a comportar-se como quaisquer consumidores, mudando de fornecedor quando o serviço não lhes parecia satisfatório. Tal como num ambiente comercial, também passou a haver espaço para novas empresas com propostas aparentemente mais atraentes.

O Funil

Sempre pensei na vida como se fosse um funil. As pessoas começam nas bordas do funil, têm imensas possibilidades e depois, à medida que envelhecem, o círculo é cada vez mais pequeno, até que saem pelo cano fora… As possibilidades estão todas lá, ao princípio. Mas a vida é mesmo uma diminuição das possibilidades. As pessoas têm sempre de escolher e quando escolhem, perdem sempre alguma coisa.


Vasco Pulido Valente

Fahrenheit 451

[review of the book Fahrenheit 451 (1953), by Ray Bradbury]
A society can be a dystopia and doesn’t know it: maybe, it doesn’t even care! Montag, Fahrenheit’s improbable hero, isn’t concern with some ruthless political elite, he just wants to rouse his wife, himself and ultimately, his technologically advanced community, from theirs intellectual alienation. His awakening is a thrilling story, full of powerful metaphors and a perfect climax. Ray Bradbury’s novel has a chilling resemblance to today’s screen obsessed civilization.

[Quotes]

More pictures. The mind drinks less and less. Impatience. Highways full of crowds going somewhere, somewhere, somewhere, nowhere.

If you don’t want a man unhappy politically, don’t give him two sides to a question to worry him; give him one. Better yet, give him none.

Cram them full of non-combustible data, chock them so damned full of “facts” they feel stuffed, but absolutely “brilliant” with information. Then they’ll feel they’re thinking, they’ll get a sense of motion without moving.

The folly of mistaking a metaphor for a proof, a torrent of verbiage for a spring of capital truths, and oneself as an oracle, is inborn in us, Mr Valéry once said.

A Pattern of Racial Targeting

Same race. No racial discrimination. No problem. Roughly once a week over the past eight years, Philadelphia police officers opened fire at a suspect. Almost always, the suspects were black. Often, the officers were, too.

The statistics were laid out in a Justice Department report, which does not allege racial discrimination. When federal investigators looked at the race of the officers and the suspects, they found no statistically significant difference in the outcomes: 85 percent of victims and perpetrators in Philadelphia are black. It is the kind of data that has been nearly absent from the debate over police tactics that began with a deadly shooting in Ferguson, where a black and unarmed 18-year-old was fatally shot by a white cop. Commissioner Ramsey reminded people of the violence plaguing the city: “Folks need to quit killing each other. In case you haven’t noticed, I’m black myself.” Philadelphia saw more police shootings than New York, a city with five times the number of residents and officers.


Tribalização

Não sei quando as comunidades chegaram às notícias mas constato que elas não param de se reproduzir. Cada vez há mais comunidades. Temos a comunidade africana. A comunidade chinesa. A comunidade cigana… A estas comunidades de base étnica juntam-se comunidades religiosas, como a comunidade islâmica e a hindu ou comunidades definidas a partir do sexo como é o caso da comunidade homossexual. Cada uma destas comunidades subdivide-se em outras comunidades e assim sucessiva e antagonicamente pois uma das características do mundo comunitário é que pode assumir como traço identitário aquilo que aos extra-comunitários é vedado.

Em boa verdade, à excepção dos brancos heterossexuais não islâmicos, todos os restantes estão mais ou menos arrumados em comunidades. Os brancos heterossexuais não islâmicos são frequentemente racistas e intolerantes. Os que não cabem nessa categoria e consequentemente se arrumam numa das várias comunidades também. Mas enquanto que para os primeiros, os brancos heterossexuais não islâmicos, isso é um crime, nos segundos não passa de um traço cultural.

Ser visto como membro de uma comunidade dá aos seus membros uma espécie de estatuto de excepção mediática e politicamente consagrada. As consequências desta comunitarização da sociedade, em certo sentido quase uma tribalização, podem ser bem bastante perversas: não só o multiculturalismo falhou como se transformou num eixo de financiamento e de poder para os líderes das minorias. Estes, longe de promoverem a integração, têm contribuído para o crescimento do gueto e da exclusão porque é aí e daí que lhes advém a influência.


Helena Matos no Observador