O Povo do Norte

(por Rui Ramos, no Observador)

O Norte era de facto outro país. Perante um sul de funcionários públicos e de latifúndios e grandes empresas, estava este outro país de pequenos agricultores, pequenos empresários e emigrantes, na maior parte self-made men, ciosos das suas propriedades, ligados desde a década de 60 à Europa ocidental pelas exportações e pela migração, e unidos em comunidades ferozmente independentes, à volta das suas autoridades religiosas tradicionais. Foi esse povo que, no Verão de 1975, saiu em massa à rua, ao toque de sinos, para contestar o comunismo fardado de Lisboa. Em Lisboa, comunistas e extrema-esquerda, em pânico, chamavam aos nortenhos reaccionários e terroristas. 

Foi essa grande expectativa de promoção social pelo seu próprio esforço, numa sociedade livre, que o Norte representou em 1975, num país onde era então suposto tudo vir a pertencer ao Estado e ser decidido pelo Estado. E foi esse norte que acolheu o brigadeiro Pires Veloso, quando tomou conta do comando da região militar, como o braço armado que até não tivera, mas também, pelas suas maneiras directas e desassombradas, como o símbolo da mítica franqueza popular nortenha perante uma Lisboa cortesã e florentina.

Nos primeiros anos depois do PREC, foi no norte que esteve a maior parte da iniciativa privada, a exportar as roupas e a recolher as remessas da emigração que equilibravam as contas do país. Foi a norte que surgiram as primeiras grandes empresas e os primeiros bancos privados do pós-25 de Abril. Foi esse norte que deu à Aliança Democrática de Francisco Sá Carneiro, em 1979-1980, as suas maiores vitórias e a sua dimensão de movimento popular contra as limitações impostas à democracia pelo PREC. Foi esse norte que levantou o FCP. Depois da década de 1980, a integração europeia nem sempre favoreceu a sociedade e a economia nortenhas, fê-las mais fracas e mais dependentes, enquanto os partidos políticos que tinham tido aí a sua base se instalaram no Estado lisboeta e na “Europa”. A democracia portuguesa perdeu com o fim do norte de Pires Veloso.

Porto, anos 50/60

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